Gravidez não é doença por Carla Alexandra Correia

27-02-2017 16:32
“Gravidez não é doença” - uma frase que é muito comum ouvirmos no nosso dia-a-dia, que não deixa de ter uma base de verdade, mas a forma como às vezes ela é pronunciada é que não é a mais “correcta”.
Falando um pouco da minha experiência e gravidez há quase 20 anos atrás e que não tinha nem pouco mais ou menos a consciência que tenho hoje.
Durante a gravidez, e com base na frase tão familiar no meu ouvido, trabalhei até ao último dia, ensinamento que a minha mãe me passou, pois como exemplo, a minha mãe estava grávida de mim, trabalhou até ao dia 6 de manhã, e eu às 00h30 do dia 7 estava a nascer. Na minha gravidez do meu filho trabalhei até ao último dia, inclusivamente pus o despertador para ir trabalhar no dia em que ele nasceu, mas já não fui pois entrei em trabalho de parto.
Não é que considere que isto é certo ou errado, é o que é, mas o que eu quero transmitir com estas palavras é o que eu enquanto Mulher grávida me permiti a fazer para que perante a sociedade, especialmente o trabalho, eu não fosse considerada uma “coitadinha” e que tinha de ficar em casa porque estava grávida. E então, olhando para trás e com a consciência que tenho hoje sinto claramente que vivi o arquétipo da Guerreira, da Mulher que se acha a Super Mulher e que consegue fazer tudo e mais alguma coisa, e trabalhava das 9 às vezes até à uma da manhã, isto já em gravidez de fim de tempo.
Lembro-me muito das palavras da Ginecologista/Obstetra que me acompanhou que dizia “Carla preciso que descanses pois quando o bebé nascer não terás descanso”, e eu, que me achava muito forte, dizia: “Está bem Doutora, este pico de trabalho está a chegar ao fim e eu depois descanso”, claro que não tive tempo para descansar.
E à medida que fui escrevendo este texto senti-me a tocar em muitas feridas que nós Mulheres carregamos. Temas como a Mulher Servilista que está sempre ao serviço dos outros e esquece-se de si própria, a Mulher que faz tudo para agradar os outros para ter amor, para ser reconhecida. Mas, depois, no fundo percebemos que não somos mais do que uma peça perante esta sociedade patriarcal e que se não formos nós a cuidar-nos, a mimarmo-nos, a nutrimo-nos, não são os outros que os vão fazer por nós, em primeiro lugar teremos que ser nós a fazer por nós. Não precisamos de viver desconectadas de nós mesmas.
No fundo é verdade que gravidez não é doença, mas para nós podermos usufruir ao máximo deste estado, e agora como Doula mais consciência tenho disso, é muito importante termos tempo para NÓS, termos tempo para a GRAVIDEZ.
E com este texto e com base na minha experiência enquanto Mãe, a gravidez é uma etapa da nossa vida que nos marca seja de que forma for, e durante esta fase há toda uma conexão a termos connosco, com o nosso corpo, com o bebé que vai nascer e de facto é preciso tirar tempo.
E o tirarmos tempo para nós, o estarmos conectadas com as nossas emoções, com o nosso corpo, não quer dizer que seja só durante a gravidez, pois na realidade é um tema que toca em todo o tempo da nossa vida enquanto Mulheres.
Grata por me lerem
Carla Alexandra Correia