Caminho da Integração da mulher - a Santa e a Selvagem por Carla Ávila

27-01-2017 19:09
Vivemos em Portugal, num país fortemente marcado pelas heranças patriarcais do catolicismo e a vivenciarmos os 100 anos da Aparição da Mãe (que é divina e visceral) por si só temos aqui um ano intenso de trabalho interior.
 
A instituição eclesial apresenta Virgem Mãe de Deus (a Santa) como modelo feminino - a virgem, a Mãe e a esposa, aliada ao pecado, à castidade, à submissão, à obediência, ao silêncio, à passividade ao em prol de um prémio de um Deus castrador – está tudo bem são escolhas e eu respeito.
Por outro lado temos Eva (a selvagem) a visceral, a serpente, a subtileza astuta, aquela que sabe das suas escolhas sexuais e seduz o Adão do paraíso merecido.
Na sociedade patriarcal, a mulher está acorrentada de si mesma, está cindida. Foi-lhe retirada a visceralidade, amputada a ligação à Terra, à Mãe, ao seu corpo, ao seu centro, à sua intuição, ao seu poder e foi-lhe dado o molde onde a todo o custo a mulher se anula para satisfazer um Deus fora si. É-lhe dito subtilmente que ela não é capaz de ser autónoma, não é capaz de se ligar ao Divino, não é capaz de se curar, não é capaz de se superar, é uma "coitadinha" que tem de pagar os males do mundo (a culpa), com as suas dores de parto e sangrar toda a vida e seja o que Deus quiser. Depende do homem que a doutrina e a educa a ser mulher segundo os segundo a sua energia também ela ferida – daí surgem mulheres com energia patriarcal. É um enlevo da parte da mulher, gerir a incapacidade, a vitimização e a desresponsabilização associada a energia masculina de patrono.
Por sua vez apresentam-se as outras que brilham, que são autónomas na realização da sua sexualidade, que não acatam nem regras nem submissão mas actuam segundo os padrões do homem.
No meio destas incapacidades todas e da ferida ancestral com a mãe, a mulher liga-se ao masculino como forma de compensar a carência, a nutrição da mãe. A mãe que é o nosso primeiro amor. A mãe que também não teve colo. É a história da mulher sem mãe que a todas nos toca.
E agora o que fazer?
Existe uma possibilidade de caminho. É o caminho, da integração das duas mulheres em nós (integrar a santa e a selvagem), é o caminho da cura da mãe e de toda a nossa linhagem feminina dentro de nós. É um trabalho interno- mergulhar na dor para reconhecer o amor. Limpar as memórias uterinas das feridas do amor-próprio e do poder pessoal. Conectar-se com o seu sangue menstrual que não é lixo, mas vida e abundância. Religar –se a sua essência feminina, sua intuição, á sua sensibilidade, á sua raiva, á sua força, á sua capacidade regeneradora e curadora, ao seu brilho, ao seu corpo. Conectar-se á Terra, e aos seus ciclos. Somos filhas da Terra.
Eu escolho fazer este trabalho em círculo – No Ninho da Serpente. Pois é sentada em círculo que vou deixando peles antigas e assim como a serpente me vou regenerando. Curo-me, nasço e renasço as vezes que forem necessárias. Tenho muito amor e gratidão pelo círculo de mulheres que me acolhe e me diz: “podes ser o que quiseres ser” – há amor de irmandade e há muita abundância quando em círculo nos apresentamos em verdade de coração e útero.
Ocupo o meu lugar como mulher consciente, do caminho já feito e do muito que ainda há para fazer, apartir de mim.
Haya Ma*
Aho!
Para terminar quero apenas destacar que o foco deste texto é apresentar a possibilidade de um caminho para as mulheres que assim o desejarem, não é nenhum ataque pessoal à instituição Igreja. Pois essa foi a minha anterior escola, onde aprendi, vivenciei, servi durante 32 anos da minha existência como mulher. E onde manifesto, respeito e gratidão. Foi e é a minha história que me traz até aqui e me permite fazer as minhas escolhas de forma responsável. A vivência traz-me sabedoria e maturidade. Honro o meu caminho.