A mulher iniciadora de si mesma por Isabel Maria Angélica

21-11-2016 13:13
Na passada sexta-feira estive na Espiral, em Lisboa, sítio onde costumo trabalhar já há mais de dois, mas como convidada do António Paiva que gentilmente me convidou para falar do Fio Vermelho – a Consciência da Mulher para o Resgate do Poder Uterino, inserido num ciclo de entrevista sobre o Sexo e o Espírito.
À partida, o que fui partilhar com as pessoas que carinhosamente estiveram presentes em duas horas de conversa, não terá muito a ver com sexo... pelo menos na vertente do que é conhecido ou designado como tal...
Pude e tive espaço para partilhar a súmula de 25 anos de caminho na espiritualidade e quase 44 na humanidade. E foi bom (muito bom!) ter sido recebida e escutada num testemunho que tem tanto de pessoal como de serviço, pois desde cedo a minha experiência interna me serve de plataforma de trabalho para o exterior.
Falar da Mulher, Útero, Sangue Menstrual e afins parece conversa de feminista, mas costumo dizer que acima de tudo é humanista. E de facto, é um risco que corro, como mulher, de abrir temas e falar de coisas de mulheres, ainda mais quando lancei para o ar a frase de que a “a mulher é a iniciadora do homem”. Uma frase que escutei e senti como verdade a partir de uma mulher que honro sempre como uma das minhas professoras, mesmo que a distância impere agora. Uma frase que tenho vindo a vivenciar, pois a minha vida é mestra em trazer-me as experiências que me ajudam a firmar o que é caminho.
Apesar do risco de falar de coisas de mulheres e ainda mais ter na plateia uma mão cheia de homens já maduros, senti que tive finalmente os ouvidos e coração destes homens para compreenderem um pouco do que é as mulheres fazerem trabalho de consciência em si mesmas e para consigo mesmas. E não em função do exterior, nomeadamente dos homens que no fundo, no fundo, por mais esclarecidos que sejam, ainda buscam e alimentam o conceito de que a mulher pode ser a santa, mas que também precisa ser a maluca, a selvagem, que lhes traz o patamar de experiências de alcova apenas sonhadas.
Contudo, ali estive a falar da mulher iniciadora a muitos níveis – no amor próprio, na conexão com as emoções, na sabedoria intuitiva e outras áreas que são comuns a partir das manifestações uterinas das nossas essências.
 
Enquanto a sociedade, nós mesmas e os demais nos pedem que sejamos “uma lady na mesa e uma louca na cama” e incutem expectativas, conceitos e pré-conceitos, são poucos aqueles que se dão ao trabalho (sim, trabalho!) de escutar e acolher o que significa uma mulher mergulhar em si mesma e a partir daí abraçar corajosamente a desformatação de tantos paradigmas ancestrais. Afinal o que é isto da mulher se parir a ela mesma? O que implica? O que lhe é pedido a um nível mais profundo e interno? Que leituras faz ela de si mesma e do que está a curar? Como isto toca nos relacionamentos externos? Como é que isto lhe toca na Alma dorida? Como é que isto se manifesta num exterior? Que linguagem pode traduzir as buscas e conquistas? Quem é ela, afinal?...
A mulher transforma-se na iniciadora. Na catalisadora. Na selvagem indomável aos olhos de tudo o que a rodeia. Na senhora de si, do seu corpo, coração e vontade. E aqui o mundo treme de pavor pela manifestação pura de um poder antes adormecido. Um poder que é temido por si mesma e por quem a acompanha. Um brilho que se torna invejado e inacessível, pois cada brilho é único. Aqui a mulher é iniciadora dos processos da verdade e transparência. Ela é a iniciação, o princípio, o começo... Sim, a mulher é iniciadora dos homens, das mulheres, das crianças e de todos os seres viventes na Terra. Pois a mulher manifesta-se nessa pujança de vida e criação mas (e há sempre um mas...) ela precisa, primeiro que tudo, acima de tudo, ser iniciadora de si mesma, no amor e dor, na luz e nas cavernas de si mesma, com tudo o que isso implica.
E foi esta a mensagem que deixei, a partir estruturas, a escavar na psique, fazendo arqueologia aos registos ancestrais e celulares dos nossos seres para que a verdade nos seja revelada a partir de dentro de forma irrefutável. Fazer com que as mulheres se permitam a sentir o clique da busca de si mesmas é o meu trabalho com elas. Abrir caminhos para que a essência única de cada um/a seja manifestado na verdade dos trilhos da alma... Permitir que as estruturas se partam de dentro para fora.
A minha especialidade não é o sexo, nem o amor, nem as relações humanas... a minha especialidade de estudo sou eu mesma, com todos os erros que posso cometer com esse estudo, mas também com todas as curas que me permito operar em mim mesma. E com isso, curo e estudo o feminino e o masculino em mim, que se manifestam fora de mim. Um estudo que vai durar esta vida e com certeza as próximas, pois o meu eu é infinito, como o de todos.
A mulher precisa reconhecer a sua ambiguidade, ciclicidade, dores, potenciais, dons, amores, ódios, invejas, raivas, transcendências e, a partir de tudo isto que é, manifestar-se cada vez mais de forma lúcida e verdadeira consigo mesma. A mulher não é a santa nem a selvagem. A mulher não é a Eva nem a Lilith. Pois tudo isso são divisões à partida que nos fragmentam ainda mais. A mulher é a mulher... e que mulher é essa? É preciso caminho...
No entanto, fazer caminho para não se ser algo que os outros esperam, não para agradar a todos, ser um ser de serviço em oposição a servilista, é a sua principal e primeira cura. Aí reside o total apaziguamento no amor-próprio onde o seu poder pessoal se manifesta na certeza de que o que trilha é em si e consigo. E aqui reside a primeira e brutal desconstrução paradigmática a ser feita. Mas sem este início, não há caminho real e efectivo da manifestação primordial do princípio gerador de toda a vida a partir do eixo criador do oração:útero.
Abraço-vos a partir do meu eixo criador de coração:útero
 
Isabel Maria Angélica
21 de Novembro de 2016
www.ninhodaserpente.net
www.terrasdelyz.net
Este texto pode e deve ser partilhado, mas por favor respeita a origem do mesmo.
O DVD da entrevista integral está disponível à venda na Espiral. Basta estabelecer contacto com o António Paiva.